Quando comecei a analisar o mercado português de apostas há mais de uma década, a primeira coisa que me chamou a atenção foi como as odds em Portugal eram sistematicamente menos atrativas do que nos mercados que eu acompanhava noutros países europeus. Com o tempo, percebi que a resposta não estava na ganância dos operadores – estava na estrutura fiscal e regulatória. Portugal fez escolhas específicas que têm consequências diretas para o apostador. Neste artigo, coloco o mercado português lado a lado com o europeu.
O Mercado Europeu de Apostas em Números
O jogo regulado na Europa é uma indústria de dimensão impressionante. O mercado total atingiu 137 mil milhões de euros em GGR em 2024, dos quais 55 mil milhões foram gerados online – 40% do total. O crescimento do online continua a acelerar face ao offline, impulsionado pelo mobile e pela regulamentação progressiva de novos mercados.
O segmento de apostas desportivas especificamente foi avaliado em 36,4 mil milhões de dólares em 2024, com projeções de 83,2 mil milhões até 2033 – um crescimento anual composto de 9,6%. As apostas desportivas online representaram 56,22% do rendimento europeu de jogo online em 2024, o que confirma a posição dominante do segmento face ao casino digital a nível continental.
Dentro deste panorama, os maiores mercados europeus são o Reino Unido, a Itália, a França e a Alemanha. Portugal, com 1,21 mil milhões de euros de GGR em 2025, é um mercado pequeno em termos absolutos mas com uma taxa de crescimento que superou a maioria dos vizinhos nos últimos cinco anos. O potencial de crescimento per capita ainda é significativo – Portugal tem menos penetração de apostas online do que o Reino Unido ou os países nórdicos. Se considerarmos que o mercado online europeu deverá rondar os 164,83 mil milhões de dólares em 2025, segundo a Statista, a margem de crescimento para mercados em fase de maturação como o português é considerável.
Onde Se Posiciona Portugal
Para perceber a posição de Portugal, ajuda pensar em três dimensões: tamanho do mercado, maturidade regulatória e ambiente fiscal.
Em tamanho, Portugal é um mercado de nicho no contexto europeu. Os 1,21 mil milhões de euros representam menos de 1% do GGR europeu total. Mas a dinâmica de crescimento é forte – em 2024, o mercado cresceu 42% face ao ano anterior, e em 2025 consolidou-se com mais 10%. Poucos mercados europeus maduros conseguem estes números.
Em maturidade regulatória, Portugal está no pelotão da frente. A legislação de 2015 criou um dos modelos mais completos da Europa, com SRIJ como regulador independente, licenciamento obrigatório, autoexclusão centralizada e IEJO como imposto específico. 24 dos 27 países da UE têm regimes de licenciamento para apostas online, mas nem todos têm a mesma profundidade regulatória que Portugal.
É no ambiente fiscal que Portugal se destaca pela negativa – pelo menos do ponto de vista do apostador. A taxa de 8% sobre o turnover de apostas desportivas é uma das mais penalizadoras da Europa, e tem um impacto direto nas cotações que os operadores podem oferecer.
Modelos de Regulação: Portugal Face à Europa
Cada país europeu desenhou o seu modelo regulatório com prioridades diferentes. Alguns priorizaram a proteção do consumidor, outros a receita fiscal, outros a competitividade do mercado. Portugal tentou equilibrar os três – com resultados mistos.
O modelo britânico, gerido pela UK Gambling Commission, é frequentemente citado como referência. Taxa de 21% sobre o GGR (não sobre o turnover), regulação rigorosa da publicidade, limites de stake obrigatórios e investimento significativo em prevenção do jogo problemático. O resultado: um mercado altamente competitivo com odds atrativas para o apostador, mas com margens operativas mais apertadas para os operadores.
A Itália segue um modelo misto, com taxa sobre o turnover para apostas (inferior à portuguesa) e sobre o GGR para casino. A coexistência com uma extensa rede de pontos de venda físicos cria um mercado híbrido que se assemelha, em parte, ao modelo português do Placard. A Espanha cobra 25% sobre o GGR, alinhada com a tendência europeia, e tem vindo a apertar a regulação da publicidade de forma agressiva.
A tendência pan-europeia é clara: migração para tributação sobre GGR e regulação mais apertada da publicidade e do jogo responsável. Portugal mantém-se como um dos poucos mercados que taxa o turnover, e esta anomalia fiscal é o principal fator que penaliza as odds no mercado português. A questão que se coloca é: até quando? A pressão da indústria para uma revisão do modelo é crescente e o debate político sobre o tema tem ganho tração nos últimos meses.
Impacto das Taxas Nas Odds: Portugal vs Mercados Vizinhos
Aqui está o ponto que mais afeta o apostador no dia a dia: as cotações. A margem média dos operadores portugueses atingiu 22% em 2025, face a 21,1% no ano anterior. Na prática, isto significa que por cada 100 euros apostados no mercado português, os operadores retêm em média 22 euros. Num mercado como o britânico, a retenção média situa-se entre 5% e 10%, dependendo do desporto e do mercado.
A diferença deve-se quase inteiramente à estrutura fiscal. O IEJO de 8% sobre o turnover obriga os operadores portugueses a trabalhar com margens mais elevadas para serem lucrativos. O Estado arrecadou 353 milhões de euros em IEJO em 2025 – é dinheiro que, no final, sai do valor que o apostador recebe nas cotações.
Para o apostador, isto traduz-se em odds menos generosas. Uma cotação de 1.95 num operador britânico pode ser 1.85 num operador português para o mesmo evento. A diferença parece pequena, mas ao longo de centenas de apostas acumula-se significativamente. É por esta razão que alguns apostadores portugueses mantêm contas em operadores estrangeiros – uma prática que, se feita em plataformas sem licença SRIJ, é ilegal e acarreta os riscos que a análise do jogo ilegal em Portugal documenta.